
Se os genuínos poetas do relvado são capazes de emocionar multidões com o altivo pentear de uma bola, já aqueles que não nasceram com tal talento divino arriscam-se a alugar quarto nas caves do esquecimento. A não ser que consigam cativar as almas das referidas multidões através de repetidas demonstrações de inépcia futeboleira, activando o interruptor da chamada "comédia não-intencional".
O que seria de
Bote Botende se tivesse defendido os livres de José Barroso de forma sólida, porém nunca brilhante? Seria neste momento um filho querido do Mundo imaginário de Portugal, onde figuras sui generis jogam à pelota por cima de nuvens feitas de algodão doce? Seria ele
Bote Botende, o mito?
Não. Seria
Bote Botende, o gajo que poda sebes no bairro "posh" do sempre solarengo burgo de Mbuji-Mayi, Congo.
A comédia não-intencional encontrou na internet um aliado à altura, imortalizando várias figuras cromáticas através de uma joint venture que se prevê imortal. Pelo menos até à concessão da rede rodoviária nacional à empresa Estradas de Portugal acabar. O que vai dar mais ou menos ao mesmo.
Pois bem, o senhor que se segue é uma prova viva de que a falta de jeito nos pode levar longe. Como tantos outros habitantes deste blog, chegou a Portugal com rótulo de craque e certificado internacional de classe insofismável. Titular no Mundial '98, seria finalmente o Caça-Fantasmas que iria acabar de vez com um dos filhos preferidos do
"Cromos da Bola":
O Fantasma de Vítor Baía. Qual
Bill Murray ou Dan Aykroid em 1984,
Ivica Kralj pôs a sua arma de feixe de protons às costas e disparou em todas as direcções. Seguramente atingira o afamado fantasma que afinal não conseguira ver. Mas tudo estaria certamente controlado, e o sérvio preparava-se para fazer juz ao nome (sim,
"Kralj" significa "Rei" em sérvio) e sentar o seu traseiro real no trono da Invicta.
Mas havia um problema. Ele próprio.
Os primeiros sinais de absurda falta de aptidão chegaram na pré-época, com um perú maior que a barriga do agricultor
palmelão, logo frente ao espanhol Tenerife. Nem de propósito, o remate vitorioso tinha saído da bota do Van Basten leceiro,
Domingos Paciência de seu nome, e Portista de sua alma.
Lesto a assumir o erro como um homem íntegro e merecedor de sobrenome real, o guardião prontificou-se a explicar que o golo teria sido culpa do central
Aloísio. Perdão? Aloísio? O mesmo Aloísio que não estava na baliza? Sim, esse mesmo. Porquê? Ora vejamos a sequência do pensamento real de
Ivica Kralj: jogo de apresentação
-> Porto vs
Sporting -> Aloísio choca com Ivica
-> magoa olho do menino
-> jogo com Tenerife
-> frango
-> é do olho
-> culpa do Aloísio.
Uma linha de pensamento simples e que deixa bem vincado o carácter forte deste íntegro Rei sérvio, general de tantas batalhas.
Porém, convicto que este
faux pas não teria sido mais que um acaso tão aleatório quanto um bom jogo de
Ivo Damas ou um pensamento coerente de
Vale e Azevedo, o
Engº do Penta voltaria a apostar em
Ivica Kralj para salvaguardar o último reduto tripeiro.
Digamos que foi uma decisão tão boa quanto a de tentar convencer
Petar Krpan a fazer um anúncio a um champô anti-caspa. Cedo os
faux pas condimentados a açafrão passaram a fazer parte dos pratos dia do restaurante das Antas.
Há
Leiria, há Boavista e há
Dínamo de Zagreb. Mas sobre tudo, há
Olympiakos fresquinho e
Alverca com bechamel. Comecemos pela iguaria em solo luso: o
FC Porto asfixia o seu rival ribatejano e passeia no relvado tal como Eládio Clímaco na
voz off de um documentário chunga da RTP2 (e com isto, inauguramos a palavra "chunga" no blog).
0-5 é o resultado, e os alverquenses já baixaram os braços. Ninguém corre, ninguém defende, ninguém ataca. Mas...
helás! Eis que surge uma investida pelo flanco esquerdo! Ah...mas o gajo corre sozinho. Vai centrar mas não está ninguém na área para finalizar. Essa é do redes. Será?
Not really. O centro parece inofensivo, direitinho às mãos seguras do guardião, que sem opositor por perto, prepara-se para agarrá-la calmamente. Os companheiros de equipa começam a subir no relvado, pensando já em mais um eficaz contra-ataque e respectivo 0-6 a favor dos azuis-e-brancos. Mas espera lá...este redes não é o que tem aquele problema no olho?
Pimba.
Golo. 1-5 no marcador e risos descontrolados na bancada. Pelos vistos,
Kralj terá sido incomodado pela insana pressão da linha avançada do
Alverca, posicionada algures entre a meia-lua e o seu meio-campo defensivo, e socou a bola para um beijo inesperado às até então invioladas redes. Maldito Aloísio.
Chega? Nem por isso.
16 de Setembro, 1998. Liga dos Campeões da UEFA, palco maior do futebol Mundial. Um palco digno de um Rei. Ou então, próprio de um bobo da côrte. O campeão português vence por dois a zero a cinco minutos do final, fruto de uma excelente exibição e um frango finíssimo do grego
Eleftheropoulos, honra lhe seja feita. Os adeptos saem do estádio esfregando as mãos por mais três pontos no saco. Magnífico. Eis que há ecos de 2-1, fruto de desconcentração da defesa lusitana, já a pensar no apito final. Sem grandes problemas, o goal average não conta para grande coisa e obviamente que já não há tempo para mais nada. Mas...mas...o que é
isto??Onde é que vai o homem?!?!? Ele está doido! Pimba.
Golo. 2-2.
Ah não,
ESTA não é culpa do Aloísio!
Caída em desgraça, a carreira do sérvio na Invicta fechou mais celeramente que um SAP numa terra do interior. Sendo certamente dos poucos jogadores dos quais se pode dizer que foram corridos para fora do clube, o Rei Sérvio inscreveu o seu nome a letras de diarreia na História do clube Portuense.
E não só, julgando pelo seu percurso pós-FCP, caracterizado por uma furiosa espiral descendente que o levou por
PSV, Partizan e FC Rostov, onde esta época ajudou a carimbar o passaporte para a II Divisão Russa.
Tudo culpa de quem? Damn you, Aloisius! Damn you...